Locais oceânicos nos jogos de pesca, arrumados da costa para fora
Os locais oceânicos dos seis jogos que acompanho cabem em seis faixas de distância: do cais, onde nada Hungry Shark World, até um mar inventado, onde navega Sea of Conquest. Pus as faixas pela ordem em que as atravessaria um barco que saísse de Leixões, e usei as zonas marítimas da lei portuguesa como marcos.
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Cais, molhe e piscina, a zero milhas
O primeiro mar é o mais estranho, porque quase não é mar. Em Hungry Shark World o tubarão entra numa piscina de hotel com boia de salvação pendurada no muro e um homem a nadar de braçadas. Noutro ecrã o fundo é um cais de betão com contentores da Glutwell Corp. e robôs que disparam laser verde.
Não há distância à costa nenhuma: a costa é o cenário. Quem já andou pelo molhe de Leixões num dia de mar grosso reconhece a sensação de ter a água a bater a dois passos das casas, só que aqui é o bicho que sobe ao cais.
The Pirate também começa colado a terra. Os combates dos ecrãs publicados acontecem ao alcance de fortes e de vilas com telhados vermelhos.
Hungry Shark World, ecrã «Vá fundo nas missões de tubarão». Relógio a 20:57. -
Baía com ilhéus, a menos de uma milha
Época de Pesca mostra os seus sítios num único painel: oito miniaturas, cada uma com a mesma cana apontada à água a partir do mesmo barco. Numa há uma ponte comprida ao fundo, noutra montanhas com neve, e em duas aparecem ilhéus de calcário a pique, daqueles que parecem saídos de um postal do Sudeste Asiático.
Em todas se vê terra perto. Contei.
A descrição promete pesca «do rio Amazonas até ao Oceano Pacífico», mas nas imagens o oceano do jogo é sempre de baía abrigada, com água lisa e margem à vista. Nenhuma das oito mostra ondulação de mar aberto.
Época de Pesca, painel de locais com a personagem de boné à direita. -
Até às 12 milhas, o mar territorial
Em Portugal, o limite exterior do mar territorial é a linha cujos pontos ficam a 12 milhas náuticas da linha de base, como fixa a Lei n.º 34/2006, de 28 de julho. Doze milhas são pouco mais de 22 quilómetros. De um barco pequeno, com bom tempo, a serra atrás da costa ainda se adivinha.
É nesta faixa que eu poria Raft Survival. A jangada está sozinha, mas os ecrãs mostram palmeiras e ilhas baixas no horizonte, e um deles convida mesmo a nadar até à ilha. Para quem vive da pesca costeira, o mar do Raft é o mar de todos os dias com um tubarão a mais.
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Das 12 às 24 milhas, a zona contígua
A mesma lei põe o limite da zona contígua a 24 milhas náuticas. O mar aqui já é outro: mais cavado, com a costa reduzida a uma risca.
Monster Fishing 2026 vive nesta distância aparente. O menu principal mostra um barco com carreto de pesca grossa e, lá longe, um único ilhéu escarpado. Não há cais, não há casas, não há margem com árvores.
Nos Açores, os bancos onde se pesca o espadim-azul ficam a distâncias parecidas. O Banco dos Açores está a cerca de 20 milhas a sul do Faial, segundo o relato de Guy Harvey publicado a 31/05/2026, que fala também de uma encosta a norte da ilha entre 300 e 800 metros de fundo.
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Até às 200 milhas, a zona económica exclusiva
A zona económica exclusiva estende-se até às 200 milhas náuticas da linha de base. É lá fora que trabalha o palangre de superfície, a arte com que se pesca o espadarte e que também traz tintureira. E é também a faixa onde nenhum dos seis jogos se deixa situar: ou há terra à vista, ou o mar é inventado.
A profundidade é que os jogos não medem. Por isso desenhei o corte abaixo com os poucos números que tenho de fontes, e deixei os jogos só na camada de cima, onde os ecrãs os mostram.
Dados de 30 a 80 m: L. Martins, tese de mestrado, Universidade dos Açores, 2013, com 163 lances de palangre. Esquema sem valor náutico. -
Para lá das 200 milhas, o Mar do Diabo
Além da zona económica exclusiva começa o alto mar, que não pertence a nenhum Estado. É o sítio certo para um mar que não existe. Sea of Conquest chama-lhe Mar do Diabo e, nos cinco ecrãs diferentes que a FunPlus publica, a terra quase não aparece: há conveses, velas, um homem com água pela cintura a apanhar uma pedra brilhante e, num único quadro, ilhas recortadas atrás da figura de proa.
Ponho-o nesta faixa pela invenção, não pela distância: aquelas ilhas podem estar a uma milha ou a cem. Só vi as imagens publicadas, e digo isso para não fingir o contrário.
Marés de palavras, da linha de base ao palangre
Alguns termos aparecem nesta página e nos textos sobre tubarões e marlins. Ficam aqui explicados como os uso.
- Milha náutica
- 1852 metros. É a unidade das distâncias no mar e nas zonas definidas pela Lei n.º 34/2006.
- Nó
- Uma milha náutica por hora. Aparece escrito como «kn» no ecrã de The Pirate.
- Linha de base
- A linha a partir da qual se contam as milhas: em regra a linha de baixa-mar ao longo da costa, ou retas que fecham baías e reentrâncias.
- Mar territorial
- A faixa até às 12 milhas, onde o Estado costeiro exerce soberania.
- Zona contígua
- Faixa até às 24 milhas, contada a partir da mesma linha de base.
- Zona económica exclusiva
- Até às 200 milhas. O Estado gere a pesca e os recursos, mas outros navios podem passar.
- Palangre de superfície
- Linha longa com muitos anzóis iscados, que trabalha perto da superfície e apanha espadarte e tintureira.
- Pesca grossa
- Pesca de peixes de grande porte, como espadins e atuns, geralmente com cana e carreto robustos.
As seis faixas, numa só grelha
| Zona oceânica | Jogo | Profundidade mostrada | Distância à costa |
|---|---|---|---|
| Cais e piscina | Hungry Shark World | Superfície e fundo com ruínas, sem metros | Zero: a costa é o cenário |
| Porto com forte | The Pirate: Plague of the Dead | Só a superfície | Alcance de canhão de terra |
| Baía abrigada | Época de Pesca | Só um medidor de 33,4 m no lançamento | Margem visível em oito locais |
| Mar territorial | Raft Survival: Ocean Nomad | Superfície, tubarão à flor da água | Ilhas no horizonte |
| Zona contígua | Monster Fishing 2026 | Peixe puxado até à superfície | Um ilhéu ao longe |
| Alto mar inventado | Sea of Conquest: Pirate War | Tesouro no fundo raso, junto a corais | Ilhas só atrás da figura de proa |
A faixa é leitura minha da paisagem de cada ecrã; os limites de 12, 24 e 200 milhas são os da Lei n.º 34/2006.
Matosinhos, com régua e dez ecrãs
Nenhum destes jogos traz coordenadas nem escala. O que fiz foi olhar para o que está em terra em cada imagem publicada e perguntar a que distância eu estaria para ver aquilo assim: um forte a tiro, uma ilha baixa, um ilhéu isolado, nada.
É uma estimativa de quem anda no mar, não uma medição. Pode falhar por umas milhas, e está escrito assim em cada linha da grelha.
Os limites legais, esses, não são estimativa: vêm da lei e do texto dela, que deixei ligado acima.
Leixões, com a caixa de correio aberta
Conhece um jogo passado mesmo na zona económica exclusiva, sem terra à vista e sem mar inventado? Gostava de o ver.
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